Número 58
Publicado pelo Jornal do Brasil, de 26 de outubro de 2000, pg. 20.
CONJUNTURA


Um pacote sem comemoração

O recente pacote fiscal anunciado pelo governo argentino não conseguiu dissipar as incertezas e expectativas desfavoráveis, com relação ao futuro da economia daquele país. Isso porque as medidas propostas têm pouco impacto de curto prazo sobre a produção e o emprego. O efeito imediato foi a elevação das taxas internas de juros. Na verdade, tais medidas têm o intuito de resgatar, junto ao empresariado e à classe trabalhadora, a governabilidade política partidária fragilizada ultimamente. O presidente De la Rúa tem pela frente uma penosa trajetória no poder: sem dispor de instrumentos de políticas monetária e cambial (pela adoção de câmbio fixo) restam-lhe poucas opções factíveis a tirar o país do ciclo contracionista, iniciado há mais de dois anos. A deterioração das contas públicas (interna e externa) e as elevadas taxas de desemprego (15,4% da força de trabalho) revelam os seus efeitos mais perversos.

O Brasil vem sentindo as conseqüências das crises da Argentina e do Oriente Médio. As fortes desvalorizações do câmbio e o aumento interno dos juros, nos últimos dias, estão refletindo a ansiedade e os humores dos mercados.

A vantagem de adoção de um regime flutuante do câmbio é o de amortecer um ataque especulativo mais intenso contra o Real. Até o presente, nada de anormal na volatilidade do câmbio, exceto o benefício para os exportadores. O regime cambial do Brasil é como a estrutura da ponte Rio-Niterói: ambos foram concebidos para balançar frente as turbulências.