Há consenso de que há, em todas as famílias, verdades secretas que, de tempos em tempos, vêm à tona em sussurros ao pé do ouvido ou em situações extremas de brigas e mortes. Na economia não é diferente. Há verdades que parecem ser secretas para os responsáveis por sua condução e por aqueles que delas se beneficiam. Para o restante da população, distante dos privilégios do poder e das benesses públicas, as “falsas” verdades são percebidas como insustentáveis a médio e longo prazos.

A matriz macroeconômica implementada durante o primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff trazia em seu bojo a plena e duradoura felicidade para os felizardos e crédulos: elevados gastos públicos, sobretudo, destinados ao social, juros baixos, crédito e consumo fartos, preços administrados (câmbio, energia, combustíveis e etc.) controlados e frouxidão das metas de inflação. Tudo isso associado à sofrível governança corporativa das empresas e instituições públicas levou o sistema econômico a uma rota de colisão, resultando em uma das mais sérias e completas crises (econômica, política, social e de credibilidade) que o País já vivenciou.

Em pronunciamento na ONU, em setembro passado, a presidente parecia que enfim revelaria todas as verdades escondidas debaixo do tapete quando afirmou “que o modelo de crescimento econômico do País chegou ao limite”. No entanto, num golpe de mestre, alterou a ordem dos fatos ao afirmar que “a desvalorização cambial e as pressões recessivas produziram inflação e forte queda da arrecadação, levando a restrições nas contas públicas”. Apenas para ilustrar e sendo breve, a atual desvalorização cambial é resultado da falta de competência, de vontade política e de credibilidade por parte do governo em dar andamento à desordem fiscal de natureza conjuntural e estrutural.

A desordem fiscal, de um lado, e o excesso de consumo das famílias via crédito, de outro, levaram ao endividamento público e privado a níveis bem elevados. Com isso, a inflação, que outrora fora de demanda, criou vida própria, seguindo uma trajetória inercial, difícil de ser revertida.

Uma lição este governo já deveria ter aprendido: políticas econômicas adequadas são importantes, mas não garantem por si só o crescimento da economia. Já políticas inadequadas levam necessariamente à retração, gerando desemprego e perda do poder de compra da população em um processo de destruição dos ganhos sociais alcançados duramente no passado.

Pressionada pelas circunstâncias, a presidente Dilma viu-se obrigada a alterar os alicerces de sua matriz macroeconômica e convidou o ortodoxo-eficiente Joaquim Levy para consertar seus próprios e crassos erros. Era previsível que a permanência de Levy à frente do Ministério da Fazenda fosse passageira. Afinal, ele agradara o mercado, mas não o PT e a própria presidente. A despeito de seu esforço em levar adiante o “respeito fiscal”, previsto em lei, o fracasso fora inevitável por absoluta falta de apoio do Executivo e Legislativo. Sua saída já estava escrita nas estrelas, era apenas uma questão de tempo. O novo convidado, Nelson Barbosa, é do agrado do PT, mas as pessoas comuns, as donas de casa, os economistas e o “mercado” não estão confiantes com suas promessas. Todos aguardamos ressabiados os acontecimentos que virão das áreas econômica e política nos primeiros meses de 2016.

A negação dos sérios e complexos problemas ainda teima em persistir. A verdade ainda continuará secreta, assim ela crê verdadeiramente. No entanto, para mais de 70% das pessoas consultadas, a verdade já foi revelada. Este governo está reprovado.

* Doutora em Economia e professora da FGV/ Faculdade IBS

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