Publicado pela REDE DE EXECUTIVOS/FGV nº 20 – Maio/Junho de 2006.


Ao ler várias vezes o ensaio escrito por Roberto Pompeu de Toledo, publicado pela revista Veja, de 17 de maio, pg 13B, fiquei estupefata pela perversa desnudez de nosso sistema eleitoral que favorece a eleição “de ladrões, candidatos a ladrão e mal intencionados em geral”.

Dizia ainda ele: “Travou-se uma guerra em vários capítulos nos últimos anos no Brasil e, ao final, animada por satisfatórios cálculos de custo-benefício e garantida pelo sistema, a corrupção ganhou“. Para o autor a guerra contra a corrupção está perdida.

Deixei-me divagar: perdemos todos, a Brasil sucumbiu à violência das ruas, ao trafico de drogas que destrói famílias e jovens, ao crime organizado que aterroriza as cidades, a corrupção nos mais diferentes segmentos da sociedade, a mentira deslavada dos políticos, a amnésia coletiva e ao total descaso na gestão da coisa publica. Por tudo isto, e pelo meu viés econômico, conclui: estamos condenados há mais de 25 anos ao inexpressivo crescimento da economia, a um baixo PIB nominal, aquém de US$ 800 bilhões, frente as nossas potencialidades e, por conseguinte, a todas as mazelas sociais dai decorrentes.

Em outras palavras, estamos destinados a permanecer ad infinitum na condição de país “em vias de desenvolvimento” E, ao contrário de Rosa Parks, negra norte-americana, que ao não abrir mão de seu direito de permanecer sentada num transporte coletivo, deu inicio a luta contra a discriminação racial nos Estados Unidos, nós, no Brasil, permanecemos sentados e paralisados em frente à TV assistindo todas as noites noticias que tratam do continuo apodrecimento de nosso tecido social. Desanimada, apanhei o livro escrito pela budista Nazareth Solino, O Rabo da Lagartixa’, presente de uma filha no Dia das Mães, e comecei a lê-lo. Transcorridos os primeiros capítulos a esperança estava de volta.

Para tudo há uma saída, o Brasil não pode sucumbir, não podemos ceder o nosso lugar na historia da humanidade. As pessoas honestas, que felizmente são a maioria, e que vivem neste país-continente têm que se comportarem como aquele pedaço do corpo da Lagartixa que tem a capacidade de se refazer completamente quando cortado, arrancado ou apodrecido. Não podemos e não devemos abrir mão de nosso direito de ir e vir, de viver livremente, de trabalhar, de amar e de ser feliz.

Levantemo-nos de nossas cadeiras e passemos a exigir as mais amplas reformas que este país já realizou e que se façam urgentemente necessárias: da previdência, trabalhista, política, jurídica e tributária. E que, em todas essas reformas as propostas nelas inseridas contemplem a capacidade e a abrangência de desatar todos as nós que hoje impedem a realização de investimentos produtivos em montantes monetários e em ritmos elevados, que permitam alcançar o crescimento econômico sustentável e o desenvolvimento social almejado.

A guerra não pode estar perdida. .Parafraseando o poeta Carlos Drumond de Andrade, a sociedade democrática inventou as eleições para periodicamente ter a Esperança renovada!

Já dizia William Shakespeare “os homens devem ser o que parecem ou, pelo menos, não parecerem o que não são”.

Nas próximas eleições vamos evidenciar o potencial do rabo da Lagartixa, quebrando os paradigmas do conformismo, da descrença e nos comprometer com o processo de mudança que se faz urgente. Saibamos todos votar, tenhamos compromisso com o correto, para que não nos arrependamos no futuro.

1 Solino, Maria de Nazareth da Fonseca. RJ, 2006, 152 pgs. il