Número 82
Publicado pelo Jornal do Brasil, de 07 de agosto de 2001, pg. 20.
CONJUNTURA


Ao longo da história, o Brasil vem demonstrando pouca afinidade com o comércio mundial. O tamanho do mercado interno, as elevadas alíquotas e a seletividade para importar garantiam boas margens de lucros. As transações correntes (importações e exportações de bens e serviços) representavam reduzidas — embora em ascensão — parcelas do produto: nos anos 60, 12%; nos anos 70, 16%, anos 80, 18% e nos 90, 18,2% do PIB.

A partir da abertura comercial, da privatização e das aquisições e fusões de empresas privadas com investimentos estrangeiros, que alcançaram US$148,3 bilhões líquidos entre 1990-2000, dois movimentos ligados à oferta e à demanda vêm justificando as elevadas importações. O movimento ligado à demanda deixa evidente que os consumidores tornaram-se muito mais exigentes, preferindo adquirir bens e serviços de última geração, semelhantes aos padrões mundiais. O movimento ligado à oferta revela que a produção de bens e serviços, de maior valor agregado, a serem oferecidos nos mercados interno e externo, vem exigindo expressivas e crescentes aquisições de matérias primas, peças, componentes, tecnologias, etc. Nesse sentido, as nossas maiores exportadoras tem sido também as maiores importadoras, e é comum observar um certo descompasso entre receitas e despesas em dólares, em direção ao déficit microeconômico. Há muito que a competição via preços deixou de ser a estratégia do comércio mundial. A prova disto é que as fortes desvalorizações cambiais não têm sido capazes de alavancar, em ritmo acelerado, as exportações. Parece que o Brasil precisa mesmo é da volta dos antigos caixeiros viajantes, aqueles exímios e insistentes vendedores dos tempos de nossos avós.